Pe. João volta a pedir ajuda...

E nós continuamos adormecidos!

 

Olá amigos!

Sei que por aí se pensa em férias neste período, mas aqui o ano de actividades é normal até Dezembro. Aqui na paróquia tive a novena de São João Batista e a festa foi muito participada. O povo não coube na Igreja. Louvado seja o Senhor! As festas juninas aqui são muito participadas.

Mando um artigo para o jornal, para verem um pouco sobre a realidade que nós vivemos e que o Brasil são muitos "brasis" (ver abaixo).

Vejam se a minha campanha vai para a frente e me podem dar uma mão para as minhas crianças no projecto "Pão para as crianças do padre João". Tenho também algumas capelas para construir. Posso esperar alguma ajuda do meu bom povo da Golpilheira e Batalha?

Vi  a notícia sobre os amigos Missionários da Consolata aí em são Bento. Parabéns pelo movimento e, certamente, alguém daí da Golpilheira irá entrar e fazer parte activa do grupo. É um grupo simpático e deve ser apoiado, pois daí um missionário está dando a vida pela missão de fronteira no Nordeste do Brasil, na caatinga. Eu continuo ligado a vocês e peço que saúde todos os amigos que vi no jornal, a sua equipa de trabalho e o grupo missionário leigo nesse encontro em São Bento, no dia 20 de Julho. Eu estarei viajando para São Paulo, para um encontro de formação permanente sobre o Instituto da Consolata no mundo e no Brasil.

Espero que o sustento do meu projecto permaneça de pé, pois a casa paroquial é um posto de abastecimento de alimentação todos os dias. A fome é uma realidade que faz chorar e não há muita possibilidade de solução imediata. Muito obrigado pelo envio do nosso Jornal.

Um abraço deste amigo,

Pe. João Monteiro Felícia

 

R/ – Caro Pe. João, não iremos parar com esta iniciativa. Ainda não recebemos nenhuma oferta, mas acredito que o povo da Golpilheira está apenas "adormecido". Com o passar dos meses, espero que comecem a surgir ofertas, para podermos mandar e ajudar a matar a fome das crianças que tem a seu cargo.

Lembro os interessados que os donativos podem ser entregues no bar do Centro Recreativo, ao pároco (na casa paroquial ou numa sacristia perto de si), e ainda em casa de António Monteiro da Rosa, no Casal Mil Homens, que é familiar do padre João. Gostaria de começar a publicar nomes.

O Director

 

Visita do ministro da Justiça, Thomaz Bastos

Populações indígenas sofrem pela posse das suas terras

 

O ministro Justiça [brasileiro], Márcio Thomaz Bastos, esteve na aldeia Maturuca, no dia 11 de Junho. Diante de aproximadamente três mil índios, referiu-se à homologação anunciando que «vai haver uma solução rápida e essa solução não vai contrariar os interesses dos indígenas».

Os aplausos e a euforia fizeram estremecer o local da reunião, os corações e as mentes, mas ainda não foi o grito final da luta pela terra, nem tampouco, o pagamento da dívida histórica que o Brasil tem com os índios do externo do estado de Roraima. O tempo que falta para a assinatura do presidente Lula da Silva poderá ser curto para o ministro, mas uma eterna e aflita espera para os índios da região.

A esperança ainda é mais forte que o medo, apesar estarem colocados à mesa de negociação interesses de poderosos grupos económicos, incluindo mineradoras, latifundiários, rizicultores, pecuaristas e sectores retrógrados das Forças Armadas. A esperança, de facto, é que o presidente não ceda à chantagem dos novos colonizadores de um Brasil, após 500 anos. «O caminho da demarcação pode ser um "apartheid" em Roraima, o que não será bom nem para os índios nem para os não índios», dizem alguns políticos locais.

Esta visita de três dias ao estado de Roraima permitiu ao ministro da Justiça conhecer, ver e ouvir todos os segmentos da sociedade roraimense. No dia 10 de Junho, ele reuniu-se com o governador Flamarion Portela (PT), todos os deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores. Flamarion Portela, em nome de todos os inimigos dos índios, camuflou seu discurso e passou a defender a «demarcação contínua, desde que sejam excluídos a sede do município, estradas, vilarejos, fazendas tituladas e áreas produtivas», ou seja, demarcação em ilhas.

No dia 12, o ministro almoçou com 118 professores yanomami e assistiu uma sessão de xamanismo com Levi Yanomami, da aldeia Toototobi. O povo yanomami reafirmou apoio aos ‘parentes’ macuxi, wapichana, ingarikó, taurepang e patamona, cobrando pressa na homologação da Raposa Serra do Sol. «Vocês, autoridades, devem fazer rapidamente a homologação das terras Macuxi. É a terra deles, por isso eles devem morar lá. Quando vocês, autoridades, preservarem as terras deles, nós, Yanomami, também ficaremos felizes».

O bispo de Roraima, dom Apparecido José Dias, também se pronunciou a favor da área contínua. Defenderam os direitos dos povos indígenas na audiência pública, a Coiab, Cimi, Núcleo Insikiran da UFRR, CPT, CUT, Associação dos Povos e Organização das Mulheres Indígenas de Roraima (Apirr e Omir). Em nome do povo yananomi, falou o líder Davi Kopenawa.

Manifestaram-se em defesa de um suposto desenvolvimento estadual e contra a homologação, a Associação dos Rizicultores de Roraima, Federação da Agricultura (Faer), Associação dos Criadores de Gado (Acriger), Cooperativa dos Produtores de Carne (Coopercarne), Associação dos Produtores Rurais, as organizações indígenas Sodiur, Arikon, Alidicir e uma desconhecida Coping.

A audiência pública entrou para a história como o primeiro encontro da sociedade civil para discutir a demarcação de terras indígenas em Roraima. «A audiência foi bastante democrática e mostrou maturidade da sociedade roraimense. Agora é preciso a sociedade passar a respeitar os direitos originários dos índios à terra», destaca Ana Paula Sou-to Maior, consultora jurídica da Funai.

Durante toda a audiência, o ministro esteve acompanhado pelo governador Flamarion Portela, pelo presidente da Funai, Eduardo Aguiar Almeida e a Sub-procuradora Geral da República, Ella Castilho. «As posições são extremadas, mas tenho esperança e fé que vai se encontrar uma solução boa para Roraima e para os índios, que não perpetue o estado de inquietação que hoje vive», comentou Bastos.

 

Reacções às visitas

O senador Mozarildo Cavalcanti (PPS) disse que pretende reunir a bancada federal de Roraima em Brasília, para realizar um trabalho de pressão junto ao presidente Lula da Silva e à Casa Civil, com o objectivo de que a solução para a questão da Raposa/Serra do Sol «contemple índios e não índios, permitindo o desenvolvimento económico de Roraima». Ele se mostrou optimista com a imparcialidade demonstrada pelo ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça) quanto ao assunto.

O parlamentar frisou que a classe política local deixou as divergências de lado e se uniu para defender um desfecho «condizente com a vontade da maioria dos índios e não índios», que aspira por uma solução que traga paz a todos, sem comprometer o progresso do Estado. Para o senador Mozarildo, a reivindicação feita pelo governador Flamarion Portela ao ministro é pequena, pois reivindicou a exclusão de apenas 320 mil hectares, dos 1,678 milhão de hectares demarcados para a reserva Raposa/Serra do Sol.

António Feijão, presidente do Instituto de Migração e Meio Ambiente e ex-deputado, diz que Roraima tem servido como um grande laboratório mundial para o domínio e a desnacionalização do país. De acordo com Feijão, a questão indígena local foi ideologizada e teologizada. Isso tem levado a população à instabilidade económica e social, fruto do processo executado por organizações não governamentais (ONGs), que trabalham com indígenas. «Isso se deu especialmente por parte da Igreja Católica, que promoveu no estado uma semeadura antrópica, ou seja, passou a semear sobre a terra hologramas de ocupações indígenas para buscar a expansão do latifúndio do indigenato», afirmou.

 

Mais reacções políticas

Na opinião do senador pedetista Augusto Botelho, a chance do presidente Lula decidir pela «homologação da área da forma como quer o CIR, é remota. Decidir pela proposta do CIR seria gerar conflito», disse. Afirmou que é preciso abandonar a ideia de que em Roraima, mas especificamente na área pretendida, só existem grandes fazendeiros. «Isso não é verdade. A maioria é de pequenos produtores rurais, pessoas que trabalham e têm pequenas casas. Temos um ou dois grandes fazendeiros», observou.

«Se ele (Lula) decidir pela homologação em área única sem preservar as vilas, municípios, estradas e propriedades produtivas, será responsável pelas mortes que vieram a ocorrer. Tenho fé que ele será iluminado na hora de decidir», concluiu.

 

Associação dos Antropólogos do Brasil

A Associação dos Antropólogos do Brasil refere: «É comum, como agora se repete em Roraima e em outros estados da Amazónia, no Mato Grosso, por exemplo, dizer que as terras indígenas são impedimento para o desenvolvimento estadual. Semelhante argumento superficial esconde, sem muita sofisticação, a ambição de vários grupos sobre terras, recursos minerais, vegetais e animais que, de direito e por justiça histórica, são reservados para o usufruto de povos indígenas. A repetição cansativa deste falso argumento tenciona encontrar o poder executivo federal desavisado sobre o que efectivamente é justo no tocante aos direitos dos povos indígenas. Não serão as terras yano-mami, ou de qualquer outro grupo, nem a homologação de Raposa Serra do Sol que impedirão o desenvolvimento sustentável e socialmente justo de Roraima. Será, sim, a reprodução de padrões de exclusão historicamente arraigados, cujos defensores teimam em não compreender que o Brasil mudou e que não aceita mais, como se o desconhecêssemos, o furor de apropriação e acumulação de uns poucos em detrimento de muitos que se encontram dentre os mais vulneráveis dos habitantes do Brasil».

(Resumo dos textos enviados pelo Pe. João)